O TEATRO COMO CULTIVO: “ERA UMA VEZ UM TIRANO” E A TRANÇA ESTÉTICO-POLÍTICA DA CIA. CERNE | por Jefferson Almeida

Essa minha história com tantas perspectivas, de mesmo modo como o cabelo que é dividido, e as voltas que estes fios dão em si, por entre outros. As mãos habilidosas das trançadeiras são firmes, articuladas, os dedos parecem conversar entre si, cochichando alguma lorota baixinho, para ninguém escutar. Dedos sobem, enquanto outros descem ao mesmo tempo, para criar uma unidade. E, quando finalizada, há muita coerência, firmeza, poder de sustentação. (…) Um sobe e desce sem fim. Assim é a vida de todos nós. Buscando a solidez, equilíbrio, coerência e beleza, como a da trança.

Tássio Ferreira

O primeiro espetáculo a compor a trajetória da Cia. Cerne é Ainda aqui, de 2013. Embora trate de uma questão familiar, destaca o modo como aquilo a que costumamos chamar “política” atravessa as vidas de forma inescapável; uma trança (uso o termo aqui na compreensão do professor Tássio Ferreira¹), que nos remete ao princípio norteador do teatro épico-dialético, segundo o qual todos nós somos seres históricos que sofremos a interferência do mundo no qual estamos inseridos. Essa trança tem sido o solo fértil onde a companhia de São João de Meriti vem plantando sua pesquisa.

Seguindo na metáfora da plantação, a pesquisa se desenvolve em algo próximo ao sistema de consórcio de cultura, quando há o plantio intercalado de duas ou mais plantas no mesmo espaço, uma podendo fornecer nutrientes ou proteção para a outra. Ao mesmo tempo em que o grupo vai semeando sua investigação através de espetáculos destinados ao público adulto – que mais recentemente, ganharam um recorte territorial – vai, também, arando-a com investidas atentas ao universo das infâncias.

Foi, aliás, através de uma dessas investidas que conheci o trabalho da Cerne. O espetáculo era Uma história de rabos presos, que assisti na Casa de Cultura Laura Alvim, em 2023: adaptação do livro homônimo de Ruth Rocha, que conta a história de uma cidade construída sob relações de trocas-de-favores, onde as autoridades estão todas amarradas em comprometimentos imorais, e, um dia, essas relações começam a ganhar contornos evidentes, quando rabos começam a nascer nos moradores e, pior, denunciar as que outros moradores eles estão presos, revelando uma teia de corrupção.

Uma história de rabos presos é, todavia, o segundo resultado desse manejo (ou o terceiro, se consideramos o espetáculo Natal de repente, de 2018, produzido em parceria com a Cia. de Arte Popular), o primeiro é Era uma vez um tirano, estreado em 2018 que, pelas tranças do tempo, só assisti agora, em julho de 2026, na temporada realizada no Centro Cultural da Justiça Federal, na Cinelândia. Aqui, temos a adaptação do livro homônimo de Ana Maria Machado, onde a autora faz um contundente ensaio sobre o binômio democracia-tirania/despotismo/ditadura – “tem vários nomes” (MACHADO, 1982) – através da história de um lugar feliz e colorido onde povo perde sua liberdade (e cores) a partir do momento em que um tirano toma o poder.

O espetáculo estreou no período em que a presidência do Brasil era ocupada por Michel Temer, depois do processo, no mínimo controverso, que levou ao impeachment da presidenta Dilma Russeff. A isso se seguiria a eleição de Jair Bolsonaro (eleito em 2018 e sabidamente crítico do processo democrático) e, depois e por causa disso, os ataques ao Estado Democrático de Direito que culminaram no famigerado “Oito de Janeiro”. Se Ana Maria Machado refletia sobre a Ditadura Militar, em um contexto em que já havia sido aprovada a Lei da Anistia (1979) mas que ainda lidava com sérias restrições à liberdade, a estreia do espetáculo alertava para o risco iminente que se desenhava pelo panorama político. Visto hoje, o espetáculo aponta para três direções ao mesmo tempo: para o patético dessas figuras, para a fragilidade da democracia (logo, para o cuidado que precisamos empreender em sua manutenção) e, por fim, para a tenebrosa (e acinzentada) experiência de atravessar um período tirânico.

No texto do programa, Vinicius Baião – diretor e responsável pela adaptação – conta como seu contato com o livro, aos 11 anos, construiu em uma memória formativa importante que permaneceu, como uma experiência estelar², iluminando suas ações futuras. Partindo da própria experiência, Baião aposta no teatro como espaço de partilha do processo formativo que viveu através da literatura, mobilizando sua capacidade de imaginar mundos para transformar uma memória de infância em grito de alerta.

Mais do que adaptar um clássico da literatura infantil, a montagem da Cia. Cerne reinscreve a obra de Ana Maria Machado no presente, demonstrando que as discussões sobre democracia, autoritarismo e liberdade permanecem urgentes. Ao fazê-lo, confirma um procedimento recorrente da companhia: cultivar, por meio do teatro, experiências estéticas que produzem formação política sem abrir mão da imaginação.

É possível aproximar o lugarejo de Uma história de rabos presos e a cidadela de Era uma vez um tirano, não só pela afinidade dos assuntos, mas por esteticamente se assemelharem, estando em Era uma vez um tirano os princípios que ecoarão em Uma história de rabos presos. Do ponto de vista do espaço, em ambos os casos, temos elementos cenográficos móveis que compõem certa urbanidade interiorana, contudo, fiquemos, de vez, com Era uma vez um tirano.

Higor Nery e Leandro Fazolla (responsáveis por cenário, figurinos e visagismo) apostam em composições sintéticas do ponto para a cenografia (o portão dessa casa, a janela daquela outra etc.) ao passo que propõem figurinos e visagismo que flertam com um jogo de bricolagem infantil que se aproveita do que tem à mão fazendo surgir uma peruca de rolos de papel higiênico, um capacete de uma gaiola e assim por diante. Há o desafio de, a certa altura, tudo no espetáculo ter de perder a cor. Do ponto de vista da visualidade, esta transição opera-se com eficiência e beleza, dando à cena de assunção do tirando ao poder uma potência visual pela articulação dos elementos já citados com a iluminação, criada por Ana Luzia de Simoni, que se transforma em uma imensidão branca e fria. Esta cena contém ainda o momento mais potente da direção musical de Beto Gaspari. O impacto visual dessa cena, vai ser repetido quando as cores começam a reaparecer.

O único senão para este momento – ponto de virada importante no desenvolvimento da fábula – recai sobre a dramaturgia que tem a dura missão de tornar verossímil a subida do Tirano ao poder. O livro diz:

Foi por isso que apareceu o Tirano. Ou Déspota. Ou Ditador, tem muitos nomes. Quer dizer, um homem que não perguntou ao pessoal se podia ser presidente ou primeiro-ministro, expulsou quem tinha sido escolhido pela maioria e desandou a dar ordens e mandar em todo mundo, só porque era o mais forte. (Grifo meu.)

A dramaturgia (conjuntamente com a direção) trabalha com tanto brilho na beleza da liberdade que dá o tom ao início do espetáculo que a tal força superior do Tirano contida em uma única e sintética frase do livro não parece suficiente para dominar os adeptos do regime ao qual a tirania se opõe. Somos conduzidos, então, como dito acima, pela beleza cena. Por outro lado, essa insuficiência parece denotar a inexplicabilidade da própria existência da tirania, como se dissesse “o tirano é porque é”. A saber: o brilho com qual se inicia o espetáculo é de suma importância pra que nós, das nossas cadeiras, também sintamos a falta da liberdade retirada repentina e dolorosamente.

O elenco composto por Cesário Candhí, Cláudia Macedo, Gabriela Estolano, Higor Nery, Leandro Fazolla e Ludmila D’Angelis desdobra-se entre personagens adultos e crianças em três fases (pré-tirania / tirania / pós-tirania), havendo uma relação simbiótica entre os dados da visualidade e as personas. As personagens aparecem, então, como gravuras ou como máscaras sustentadas por uma fisicalidade afim, não-naturalista, cabendo às crianças que surgem no segundo terço da peça (D’Angelis, Estolano e Fazolla), a possibilidade do gesto mais livre. A própria figura do Tirano (Nery) movimenta-se como um boneco de títere para quem as articulações têm predominância nos gestos, resultando numa persona patética e extravagante com pretensões de domínio que passam pelo próprio corpo, fazendo um poderoso uso da própria máscara na composição das expressões caricaturais (e aqui isso é um valor) do Tirano.

Testemunhar os protestos das crianças da plateia, me faz acreditar na capacidade do espetáculo de comunicar as ideias sobre política e arte que se misturam na trança da pesquisa da Cia. Cerne que, através da Escola Popular de Teatro da Baixada (e do Instituto Cerne), promoveu, em 2025, na própria sede, o Ciclo Teatro para Infâncias onde, através de apresentações de espetáculos, debates e aulas, foram discutidas questões referentes a esse recorte da produção teatral. Isso reforça o trançamento e o sentido de retroalimentação entre as realizações da companhia, como no sistema de plantio que trouxe no começo dessa reflexão.

A Cerne vai então conjugando os fios de sua trança articulando movimentos, dados concretos e a criação de subjetividades e de consciência como quem cuida do solo, semeia e prepara para a colheita.

***

NOTAS

1. O professor usa a imagem da trança (e do ato de trançar) para representar sua própria história, no seu livro Pedagogia da circularidade, de onde sai a epígrafe deste texto.

2. Sobre esse conceito, ler: LIGIÉRO, Zeca. “Microperformances e experiências estelares: o vivido no relembrado”. Manzuá: Revista de Pesquisa em Artes Cênicas, [S. l.], v. 2, n. 3, p. 04–37, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/manzua/article/view/19133. Acesso em: 26 fev. 2026.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FERREIRA, Tássio. Pedagogia da circularidade. Rio de Janeiro: Telha, 2021.

MACHADO, Ana Maria. Era uma vez um tirano. São Paulo: Salamandra, 1982.

ESTE É UM ESPETÁCULO DA CIA CERNE

PARCEIROS

Desenvolvido por

  Aficcionados Produções