A EXCEÇÃO E A REGRA: “MALDITA” E O CAMINHO DO RECONHECIMENTO | por Jefferson Almeida

Em dezembro de 2025, o portal Quarta Parede, publicou o artigo Entre vitrines seletivas e ruínas invisíveis – Crítica, prêmio e desigualdade na cena fluminense¹, no qual busquei sedimentar alguns dados e iniciar uma reflexão sobre o atual estado de coisas no que se refere à legitimação da produção teatral no estado do Rio de Janeiro, considerando o quase inexistente espaço dedicado à crítica o que atribui aos principais prêmios do setor (Shell, APTR e Prêmio do Humor) o condão de chancelar aquilo que se apresenta ao longo dos anos.

No artigo, reflito sobre os protocolos de cada um dos prêmios e o modo como suas aplicações produzem invisibilidades à medida que insistem em presenças que reforçam hegemonias que, por sua vez, se constituem mais pela capacidade de produção e do capital pessoal do que pela qualidade dos trabalhos. Busco ainda perceber algumas estratégias implementadas por grupos e produções na busca por furar o véu da invisibilidade trazendo, como exemplo, a tática aplicada pelo Instituto Cultural Cerne quando da estreia de Turmalina 18-50 que levou a produção a ser indicada à 33ª edição do Prêmio Shell, o que desenhou um contorno na produção do grupo, oriundo de São João de Meriti, e que trabalha diuturnamente na manutenção desse tracejado, buscando chamar atenção para a sua ampla gama de atividades que inclui, além de espetáculos, manutenção de sede, projetos de formação de plateias, articulação de valoração do território de origem, realização de festivais e a criação da Escola Popular de Teatro da Baixada (iniciativa indicada ao Prêmio Shell, na 36ª edição) – essa nascida de uma forte articulação entre desejo e mobilização política².

Cerca de um ano separa o artigo citado acima da estreia de Maldita, em dezembro de 2024. O espetáculo criado como atividade de conclusão de duas das turmas da Escola (Montagem e Direção de Arte) chegou ao palco do Teatro Firjan-SESI Duque de Caxias com a missão de uma prestação de contas e acabou se firmando como exemplo de estratégia de ocupação e criação/manutenção de relações interinstitucionais empreendidos pelo Instituto.

Ao longo de 2025, o espetáculo realizou apresentações na própria sede do Instituto e cumpriu temporada no Teatro Municipal Café Pequeno (Leblon), no Teatro Municipal Gonzaguinha (Centro), no Teatro Municipal Ziembinski (Tijuca) e no Teatro Municipal Ipanema (Ipanema), além de compor a programação do Dia Mundial do Teatro, no Teatro Nelson Rodrigues (Centro), realizar intercâmbio com o Instituto In-Cena (Teófilo Ottoni/MG) e integrar a programação do 48º Festival de Teatro da FETAERJ (Federação de Teatro Associativo do Rio de Janeiro). E é a partir dessa última realização que puxo o fio que conecta à reflexão que aponto no parágrafo inicial. Maldita saiu do 48º Festival de Teatro da FETAERJ com seis prêmios (Espetáculo, Direção, Autor, Figurino, Maquiagem e Atriz coadjuvante) além de outras oito indicações. Alguns meses depois, o espetáculo recebe duas indicações ao Prêmio do Humor (Direção e Especial – para o Elenco, pela atuação conjunta). Na sequência, quatro indicações ao Prêmio APTR/Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (Direção, Dramaturgia, Música e Direção de Movimento). E na noite chuvosa de 16 de junho de 2026, Rohan Baruck subiu ao palco do Teatro Riachuelo para receber o Prêmio APTR de Melhor Direção – categoria que disputava com André Paes Leme (Como nos Livros), Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabovski (Eddy – Violência & Metamorfose), Elísio Lopes Jr. (Torto Arado – O Musical) e Rodrigo Portella (Um ensaio sobre a cegueira).

Vamos olhar para essa panorâmica e buscar perceber o que significa esse prêmio, para além da eficiência da estratégia aplicada. Algumas inferências sobre indicações e premiações, em geral, atravessam as conversas de mesa de bar, sala de ensaio atc. Algo como: seria irresponsável dizer que as indicações ao Prêmio do Xis levaram às indicações ao Prêmio Ípsilon? Ou que, pelo menos, levaram os jurados até a plateia, afinal, um prêmio quer dizer outras coisas, além da estratégia? Essa comissão julgadora conversou com aquela outra? Trocaram mensagens? Têm grupo no WhastApp? Teria Fulana de Tal, certeira presença nas mais variadas plateias – inclusive daqueles espetáculos aos quais os seus colegas não vão sem que sejam fortemente incentivados – sido a portadora, junto aos seus pares, do aparecimento da provocante montagem vinda da Baixada? O fato é que a montagem, parafraseando um meme citado no espetáculo, fez o requisito. Atendeu às regras. E, certamente, não sem esforço, conseguiu ser vista. É a isso a que me refiro quando pontuo a eficiência da estratégia. As indicações… Essas têm a ver com o fenomenológico, com o relacional e com o tanto de teatro que transborda de Maldita.

Ao premiar a direção de Baruck, a comissão não está apenas destacando a qualidade técnica que sua condução articula, mas, sobretudo destacando um projeto/um modelo/um modo de pensar/produzir/realizar/viver teatro. Maldita se mantém como uma ideia antes de se organizar como espetáculo; ideia que se erige em torno do coletivo, das individualidades (e não há contradição nisso) e da justeza/justiça que engaja cada um dos seus componentes na manutenção de sua vida. Antes de pensar espetáculo, Baruck pensou um processo que se desenvolve calcado na presença radical de cada parte. É isso que vaza da cena formada por mais de duas dezenas de pessoas, onde cada uma delas aparece oferecendo sua integralidade na composição do todo. Nesse sentido, a assinatura da direção leva consigo um sentido de autoria compartilhada, então, ao premiar Baruck, a comissão está destacando sua capacidade de provocar e dar a ver mais de duas dezenas de autores.

UM POUCO DE CONTEXTO

Maldita é uma leitura da Trilogia Tebana radicalmente mastigada pelos seus realizadores. Édipo Rei, Édipo em Colono/Sete Contra Tebas e Antígona são lançadas à esfinge da contemporaneidade com sua linguagem atravessada por gírias, cultura pop, deboche e a irreverência com a qual é preciso dialogar com os clássicos, afinal, é sempre sobre a nossa experiência coletiva no agora (entendendo toda a dinâmica espiralar – ou circular – que as atuais perspectivas contemplam).

Se nos festivais trágicos gregos, essas peças buscavam a purgação através do páthos doloroso que causava a catarse, essa montagem, entendendo perfeitamente o mundo no qual está inserida, busca esse fim através do riso; hoje, chamamos aquilo que nos faz rir pela óbvia identificação/reconhecimento de patético – palavra que se origina no grego e que significa, a grosso modo, aquilo que é capaz de comover; nosso tempo ri, muitas vezes um riso hipnótico que nos distancia sobremaneira dos fatos. Aqui, contudo, somos levados pela mão por uma espécie de Mestre de Cerimônias (Higor Nery), figura que, se por um lado, acumula as funções de coro/corifeu, por outro, faz o espetáculo dialogar com a tradição dos cabarés e abre a porta para que as cenas se sucedam como quadros para os quais um sem números de referências são trazidas sem, com isso, largar o foco do caminho a ser compreendido.

Da relação dos cabarés com a cultura vougue o espetáculo toma emprestada a liberdade para a composição da direção de arte e da codificação dos elementos visuais, bem como do modo como os corpos são alargados em sua comunicabilidade dançante, expressiva, política. Aliás, está contido no bojo da cena o norteador conceito de interseccionalidade. Os corpos, com suas vivências no que tange gênero, raça, classe, sexualidade são propulsores de sentidos vastos que também tocam na autoria. É instigante perceber uma direção que não submete esses corpos a um discurso higienista, gentrificador em detrimento de certas ideias sobre forma e conteúdo. Assim temos um(a) Tirésias (Zo Monteiro) que joga com a própria idade, uma Antígona (Edlane Silva) que arrasta consigo uma ancestralidade preta que pisca para o matriarcado e para o a força de Pombagira ao mesmo tempo, a ginga baixadense (que dobra o jeitinho brasileiro) em Sabiá (Ricardo Melchiades) e Maçarico (Guilherme Gelaim). Esses são alguns dos exemplos dessa inteseccionalidade que se afirma em cada um dos corpos em cena: Alexandra Mendes, Douglas Bezerra, Fabi Soares, Fernando Rocha, Jaci Nogueira, Leandro Fazolla, Marambaia, Marcus Coutinho, Mari Silva, Rodrigo Villas Boas, Rafa Domi, Rayane Souza, Rayane Zaguini, Valéria Arias, Victor Valenttim, Vivien Jamille, Ygor Rocha e Vinícius S.

Retomando os fios: essa propriedade com que os atores entram em jogo para defender uma cena que foi construída com eles e para ratificar a importância de seus corpos como “corpo-tela”, na definição da professora Leda Maria Martins³, resulta em um projeto supra-capitalista, uma vez que, nos tensos dias de hoje, é impossível sustar uma produção puramente com a venda de ingressos e sabendo que o espetáculo não possui patrocínio, levá-lo à cena tantas vezes é um esforço coletivo que reflete, como disse anteriormente, um projeto/um modelo/um modo de pensar/produzir/realizar/viver teatro. Quando a comissão julgadora premia a direção de Baruck, em alguma medida, está lançando uma pergunta sobre modos de produção e difusão de espetáculos. Uma pergunta reticente e cambaleante uma vez que não ganha vocalidade e, talvez, nem seja articulada de maneira clara entre eles. Mas estamos aqui para isso.

Maldita tem qualidades mais do que suficientes para alcançar o destaque que alcançou e, em um movimento político deliberado de afirmação do território, chama atenção para a produção da Baixada e abre uma fissura na regra. Cabe a nós (todos) manter a pressão sobre a fissura para que as exceções passem e sigam passando. Atrizes e atores pretos seguem passando pela porta aberta por Vilma Melo⁴? Atrizes e atores trans seguem passando pela porta aberta por Alitta De León⁵, Diretores baixadenses seguirão passando pela porta aberta por Juliana França⁶ e Rohan Baruck? E até quando a Baixada precisará fazer a travessia para o eixo Centro-Zona Sul? Há estrada no sentido oposto!

NOTAS

¹Disponível em: https://4parede.com/21-ruinas-ou-reinvencao-entre-vitrines-seletivas-e-ruinas-invisiveis-critica-premio-e-desigualdade-na-cena-fluminense/

²A Escola Popular de Teatro da Baixada é uma iniciativa do Instituto Cultural Cerne e teve suas primeiras atividades realizadas através de verba oriunda de Emenda Participativa (mecanismo através do qual deputados ou senadores permitem que a população e instituições indiquem e votem nos projetos que devem receber os recursos público), posteriormente, o Instituto construiu uma parceria com o Firjan SESI para a realização de mais uma etapa de suas atividades.

³ MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021. O conceito de “corpo-tela” surge na página 27.

⁴Primeira atriz negra a ganhar o Prêmio Shell, em 2017, por Chica da Silva – O Musical.

⁵Primeira atriz negra trans a ser indicada na categoria Atriz, em 2024, por Chega de Saudade.

⁶ Atriz e diretora do Grupo Código, de Japeri, indicada na categoria Direção, em 2025, por Cabeça de Porco – Retratos de um Território.

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